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06 junho 2008

Mezcal em Lava


Malcolm Lowry

Não há poesia quando vives lá.
Essas pedras são tuas, esses ruídos são o teu pensamento,
Os atroadores eléctricos de ferro e as ruas que te prendem
Ao bar sonhado onde o desespero se senta
São eléctricos e ruas: a poesia esta noutro lugar.
As fachadas do cinema e as lojas há muito abandonadas
E choradas, já não são choradas. Estranhamente cruéis
Parecem todos os marcos da terra de aqui e agora.

Mas vai a caminho da Nova Zelândia ou do Pólo,
E essas pedas florescerão e os ruídos hão-de cantar,
E os ele´ctricos seduzirão a criança adormecida
Que nunca descança, cujo barco sempre navegará,
Que nunca poderá voltar a casa, mas deverá trazer
Estranhos troféus a Troia, e a todos os ermos!
(Não Há Poesia Quando Vives Lá)

(...)
A cidade é apenas uma mentira, crispada de mentiras,
- Se eu tivesse a coragem de não dormir,
Não poderia seguir quando me pudesse levantar?
Ensina-me a navegar pelos fiordes do acaso
Perdido na minha abissal ignorância.
(Um Peregrino Passa Pela Cidade à Noite)


[ in As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar, poemas de Malcolm Lowry, seleccionados e traduzidos por José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 2008]

06 fevereiro 2008

O tempo das Imagens

Rotko, Untitled n.16 (195o)

no exíguo espaço do corpo ou da casa
tentas perpetuar a forma dos brinquedos acesos
por um misterioso cordel de poeira luminosa

sabes como é falso o tempo das imagens
dos gestos inacabados que te evocam o rosto
perdido no confuso sémen dos sonhos

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto, O Livro dos Regressos Ed. Frenesi 1989

15 janeiro 2008

Mão Morta - Maldoror



Depois das primeiras apresentações do espétaculo “Maldoror” em 2007 em Braga e Portalegre, os Mão Morta voltam à estrada.

“Maldoror” é construído a partir da obra de Isidore Ducasse - Conde de Lautréamont – Les Chants de Maldoror (Cantos de Maldoror) (1868-69), poeta maldito, fonte de inspiração para os surrealistas, cuja escrita está marcada pelo horrível, crueza, violência e maldade da espécie humana.

"Se a Terra estivesse coberta de piolhos, assim como as costas marítimas o estão de grãos de areia, toda a Humanidade seria exterminada, entregue a terríveis dores. E eu, nos ares, com asas de anjo, a contemplar..."

Edições em português:


Isidore Ducasse
Os Cantos de Maldoror
Prefácio de Adolfo Luxúria Canibal
Quasi (2004)




Isidore Ducasse
Cantos de Maldoror
trad. Pedro Tamen, prefácio de J.M.G.Le Clézio
Fenda (2004)



Datas para 2008:
28 de Fevereiro - Teatro Virgínia em Torres Novas
7 e 8 de Março - Teatro Viriato em Viseu
13 de Março - Teatro José Lucio da Silva em Leiria
5 de Abril - Teatro Municipal de Faro
12 de Abril - Cine Teatro de Estarreja
23 de Abril - Culturgest em Lisboa
3 de Maio - Theatro Circo em Braga

10 dezembro 2007

Valter Hugo Mae


Temos as sobrancelhas largas
como um jugo sobre os

olhos, um olhar esboroado

que nos medeia na morte,

partilhamos as ausências, uma

distância como espessura

à qual não somos transponíveis,

e deixamo-nos furos, poços,

para onde nos
atiramos violentamente, ou os gestos

muito pequenos condenados
às
imediações do corpo

Valter Hugo Mãe, a cobrição das filhas (2001), Quasi Ed.

Capa sobre pormenor de pintura de David Tibet, The Cat Loves The Moon (2001)

05 dezembro 2007

The Eternal


«No words could explain, no actions determine

Just watching the trees and the leaves as they fall»

The Eternal, I. Curtis